quinta-feira, Abril 03, 2008

Reich e A PESTE EMOCIONAL BRASILEIRA

Caros amigos,

defendi minha tese de bacharelado, a qual foi intitulada "A Peste Emocional Brasileira", que em seu bojo é uma leitura da cultura brasileira (via Gilberto Freyre) pela metodologia Reicheana. Como não posso postar a tese inteira, vou postar alguns trechos.

O objetivo do presente estudo é fazer uma análise histórico/psicológica de certos aspectos da cultura brasileira:

· Qual a ligação entre o comportamento sexual dos indivíduos e a estrutura social de uma sociedade?
· Sob qual estrutura foi formada a família Brasileira?
· Qual a ontogênese do sadismo e sua origem na sociedade brasileira?
· Se temos em nossa personalidade um traço sádico, qual é a explicação para que o brasileiro apresente-se como um povo alegre, receptivo, amável, despreocupado e passivo?
· Quais são as origens e os meios de propagação desta imagem do brasileiro?
· Quais são os mecanismos da reprodução da dominação no Brasil?
· Qual a origem ontogenética da passividade?
· Por qual mecanismo a dominação é incorporada à classe dominada?

O modelo familiar brasileiro é baseado na estrutura familiar patriarcal. O sadismo é um comportamento típico das sociedades patriarcais, pois o sadismo, segundo a teoria reicheana, surge a partir de uma satisfação biológica negada. Logo se o sujeito perde a capacidade de experimentar a satisfação, ele passa a substituir a capacidade de experimentar o prazer pela de odiar, tornando-se um indivíduo sádico.

Lançando mão do estudo realizado por Gilberto Freyre acerca da sociedade patriarcal no Brasil e suas caracterísitcas, é possível atestar, segundo o autor pernambucano, que nosso modelo sociológico está assentado em uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida em sua formação étnica e cultural e patriarcal/sádica na estrutura familiar; estando em consonância com os estudos antropológicos de Wilhelm Reich.
Neste ponto surge uma questão: se nossa sociedade é estruturada sob uma formação patrarcal-sádica, porque somos conhecidos por um povo alegre, passivo, amável e despreocupado?

Segundo as leis psicanalíticas, os traumas nunca são esquecidos, mas aparecem escondidos sob outras formas que, segundo a teoria do caráter de Reich, aparecem sempre sob a forma antitética entre o repressor e o que é reprimido. Ou seja se o indivíduo sente um ódio intenso, mas não pode expressá-lo devido à repressão da sociedade, desenvolve uma forma artificial de comportamento de cunho contrário a tal impulso: torna-se um indivíduo extremamente amável. Tal defesa de caráter cumpre a função de defender o indivíduo de sensações desagradáveis e anti-sociais. Logo, somos levados a supor que a imagem que se faz do brasileiro, de amabilidade, resignação ante à dominação e ao estado de miséria, é na verdade uma defesa psico-social que cumpre a função de tapar o sofrimento e o ódio estratificados na mente e nos hábitos do brasileiro, presentes desde a fundação de nossa sociedade, sob a forma de cultura popular, como o carnaval, o samba e o futebol.

Porém esta passividade ante à dominação e a dor, propiciou à classe dominante, um mecanismo cruel de dominação, que caracteriza-se em manter o povo resignado ante o sofrimento e a miséria através de “migalhas” sob a forma de assistencialismo e pseudo-solidariedade. Tais práticas, muito difundidas em nossa cultura, são herança de um hábito comum aos Senhores de Engenho das fazendas coloniais do Brasil.

O domínio é cruel, porém, ao oferecerem migalhas para minimizar uma possível revolta dos dominados, a classe dominante descobre uma fórmula da manutenção do poder no Brasil: tirania solidária= dominado passivo. Logo, a função da pseudo solidariedade inter-classes no Brasil é justamente a de manter o domínio através da introjeção da culpa no aparelho psíquico do dominado, contendo com isso sua revolta pelo estado servil. Tal prática ainda é agravada pelo sistema familiar patriarcal português exogâmico, no qual o patriarca alarga os laços familiares aos escravos, misturando as relações mercantis de trabalho, com as relações afetivas familiares, o que nubla ainda mais uma possível revolta contra a dominação.

Todavia, a dominação tomou uma outra forma depois do surgimento do cinema norte-americano pós II Guerra. Segundo a tese do professor Antônio Pedro Tota, a dominação passou a ser simbólica, na forma de sedução e fascínio. No Brasil, o representante desta dominação foi a televisão, principalmente a TV Globo, a qual, sob propriedade da classe dominante nacional, desempenhou o papel de manter a dominação através do fascínio e da sedução. Para isto o mecanismo usado foi a de reproduzir na tela da TV, do cinema e, posteriormente na indústria sonora, tal falsa imagem do brasileiro - alegre despreocupado e passivo.

A TV Brasileira é comandada estetica e ideologicamente pela elite. Insiste em mascarar a miséria e as falências das relações afetivas no Brasil, exibindo incessantemente em sua programação, um carnaval e uma alegria artificial permanentes, perpetuando nosso falso caráter alegre, despreocupado e sensual. Tal prática serve ao intuito de confundir o povo e aliená-lo de sua real situação, valendo-se do mecanismo psicológico da sedução e da identificação. O povo, ao ver-se retratado na tela da televisão e do cinema, (mais belos e alegres do que são na verdade), nas letras das músicas, identificam-se com este falso padrão, distorcido pela classe dominante, adotando-os, criando com isso, uma ojeriza pelos hábitos originais de seus semelhantes. Disto decorre o processo da perda de auto-estima e da identificação com o outro, ou identificação com a imagem que o dominador produz.

Logo nos questionamos: por qual mecanismo a dominação é incorporada à classe dominada, ou porque há resignação ante à dominação e ao sofrimento no Brasil? Reich irá responder que a estrutura familiar patriarcal é a responsável por gerar indivíduos passivos e medrosos ante a autoridade. Segundo ele, o ser humano é sujeito a duas grandes forças ideológicas que formarão sua estrutura psíquica: por um lado sua situação material e econômica, e por outro, pela estrutura ideológica da sociedade (ou o princípio da realidade). Disto sempre resulta em sua psique, a contradição: situação material versus estrutura ideológica. Desta maneira, a ideologia social altera a estrutura psíquica do indivíduo fazendo-o agir de modo contraditório.

A família torna-se com isto uma espécie de escola domadora que possui a função de tolher o indivíduo de seus impulsos naturais, moldando-o e preparando-o para adaptar-se à ordem social do estado no qual vive. Logo a estruturação autoritária do homem processa-se através da fixação das inibições e medos sexuais nos impulsos sexuais da infância. É exatamente nesta fase que o indivíduo é ensinado a pensar contraditoriamente. Ele é levado a agir contra sua satisfação por motivos que não compreende. Mais tarde isto ressoará como sua contradição material versus econômica, conservadorismo e o medo da liberdade de um lado e a plena capacidade de consegui-la do outro.

E por último resta-nos o questionamento se há algum foco de resistência contra esta dominação na cultura popular. Para isto lançamos mão do Livro “O Folclore Negro no Brasil” de Artur Ramos no qual analisa o folclore do pai João, o qual talvez seja a melhor representação popular do caráter passivo em nossos costumes. Tal folclore, caracteriza-se pela figura do velho negro João: o escravo que sofre, porém está sempre sinistramente passivo, amável e sorridente, mas despeja sua revolta contra o branco na forma de sátiras e canções. Faz-se necessário ainda a comparação do folclore do pai João com sua antítese: o festejo dos palmares, festejo popular da tradição Alagoana que se regozija com a revolta palmarina, símbolo de resistência contra a dominação.

1 comentário:

Bosco Carvalho disse...

Você é o autor do texto?

Leia o que escrevi aqui:
http://zecabatuta.blogspot.com/2007/09/reich-e-peste-emocional-brasileira.html

Abraços,

Bosco